20agosto2017

[Resenha] Desencontros e Encontros em Contos – Luiz Valério

Caro leitor,

A beleza de um livro não se apresenta do mesmo modo da que se revela em uma obra de escultura ou de pintura. Nestas, a beleza se entrega toda, imediatamente. Não faz jogo de sedução com o apreciador da arte para que este continue perto da obra para decifrar todos os seus mistérios. Já naquela − na beleza “literal”, aqui, com o significado de beleza das letras −, o belo, somente aos poucos, gradualmente, se entrega ao leitor. Assim, em doses homeopáticas, o leitor vai se deparando e desfrutando da beleza contida no livro, da beleza que o livro contém, mas que não se revela num piscar de olhos. A beleza do livro é paradoxal: em cada momento se apresenta intensa e absolutamente, mas, ainda assim, não se esgota naquele ponto em que se revelou para o leitor. A beleza da obra literária é um mistério “espacial” − como o espaço, cada ponto ínfimo é tão absolutamente espaço quanto o é a totalidade do espaço.

A relação entre o livro e o leitor é ativa. Quanto à escultura, a relação do apreciador pode ser passiva e sem prévio conhecimento de arte. Mesmo assim, pode-se avaliar positivamente o objeto como obra de arte. A arte da escultura/pintura é como o amor − sem necessidade de explicação pelo contemplador. O livro, não. Com a obra literária, não há falar em apaixonar-se pelo livro sem lê-lo. É necessário esforço intelectual para compreendê-lo. A obra de arte escultura/pintura é encantadora magia da inspiração do momento.

Enquanto para o leitor, o início do processo criativo do autor não é suficiente para definir um livro como obra de arte, na medida em o leitor precisa do arremate final, para o autor, sua obra já se torna arte desde o toque inicial da mão invisível nas primeiras ideias.

Assim nasce um livro, com sabor do nascer de um filho, mas sem o compromisso de alimentá-lo e criá-lo para tornar-se ser ativo. Enfim, o livro nasce, abandona o autor, toma vida própria e pode fazer sucesso, ou não, e pode até morrer sem sequer comunicar o seu criador. Nesse caso, o autor precisa, mais uma vez, encontrar soluções na solidão do pensar para elaborar um novo livro. E, assim, a vida segue, leitor: seja feliz hoje e sempre!

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Minha opinião

O tempo, o avião e as oportunidades sempre passam. As oportunidades e o trajeto do avião, aparentemente, podem até se repetir; o tempo, jamais.

Os estranhos observadores das janelas foi um dos contos que prenderam-me na escrita do autor de uma forma bastante interessante. São palavras contundentes, reflexivas que falam do tempo de um modo sem comparação. Parte e todo, verdade e absoluto. Questionando a relação da existência entre o observador e o observado, como também das certezas da vida que por muitas vezes passam desapercebidas, o autor enreda por caminhos da reflexão à extrema filosofia.

Ela, a ponte, sorria ao recordar que a mocidade humana tinha algo da virtude do pernilongo: Agia gulosamente pelo instinto de amor ou por sangue. Ela, a ponte, cada vez mais, revelava-se em audíveis pensamentos.

Permeando um diálogo por meio do realismo fantástico, Luiz Valério teceu “A ponte e o cadeado”. Ao dialogar com a natureza morta, observando cadeados em uma ponte, o personagem é levado a refletir sobre o quanto as paixões, dores, entregas e outros sentimentos refletiram no ambiente dando-lhe uma perspectiva de absorver dos amores juvenis, tornando o ambiente sempre carregado daquilo tudo que vivenciou.

O olhar do 15, o presente tem o brilho mágico e fascinante da ilusão. Para o 15, o presente é estático e belo – a unidade de medida do tempo é a imaginação.

O olhar do 51, o presente tem o brilho de um diamante, puro, bruto, ainda não lapidado, cheio de excessos de imperfeições pelo olhar do homem. O mistério do olhar do 51 sobre o diamante bruto não está na valoração da pedra que restou e sim, no reconhecimento do sacrifício do excesso que do diamante se retirou.

 

Um dos contos, “O Ciclo 15/51”, o autor escreveu de sua própria vivência. Quando completou seus 51 anos de idade e sua filha 15; lembrou-se que um dia tivera 15 anos e seu pai 51. O ciclo se repetia, novas histórias estavam sendo escritas, outras reescritas.

São vários contos, várias crônicas, várias palavras reunidas para virarem histórias desafiadoras. Não poderia ficar falando de um a um, pois certamente não caberiam tantos adjetivos para elogiar a obra do autor.

Na maioria dos contos, o autor permeia pela filosofia, relata a dura realidade, destila poemas e belas palavras em prol da grandiosidade da vida, relata na forma de crônicas a sua história, sua experiência de vida, de amor e de família.

Com uma narrativa suave, filosófica e contundente, Luiz Valério escreveu contos memoráveis. São histórias que transmitem a nós, leitores, um pouco dos sentimentos por ele ali colocados. São histórias pela perspectiva de outrem, que remete a nós, suave poesia.

Para quem, assim como eu, aprecia contos, crônicas e livros do gênero, peço que quando puderem leiam o livro. São fabulosas crônicas que dialogam com o leitor. Uma excelente leitura!

 

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Ficha Técnica

Livro: Desencontros e Encontros em Contos

Autor: Luiz Valério

Editora: Chiado

Lançamento: 2017

Páginas: 190

Categorias:
Thaís Turesso

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