02Maio2017

[Resenha] Ruby – Cynthia Bond

Sinopse – Uma narrativa de paixão e coragem, Ruby transporta o leitor até meados do século XX, por ruas poeirentas de uma cidadezinha no sul dos Estados Unidos, enquanto aborda temas atemporais que ultrapassam fronteiras geográficas. A jovem e bela Ruby Bell passou por sofrimentos inimagináveis durante a infância e a adolescência, e, assim que surge uma oportunidade, decide fugir de sua sufocante cidade natal no Texas para a vibrante Nova York dos anos 1950. No entanto, não consegue escapar dos fantasmas do passado. Mais de uma década depois, quando um telegrama urgente a faz voltar para casa, ela é forçada a reviver fatos perturbadores e a reencontrar os personagens que definiram os primeiros anos de sua vida, esforçando-se para manter a sanidade em meio a lembranças sombrias. Com uma prosa refinada, Cynthia Bond afirma seu lugar entre as vozes mais impactantes da ficção literária contemporânea e constrói uma história transformadora — ao mesmo tempo um retrato cruel do que o ser humano é capaz e uma demonstração da força transcendente do amor. Uma obra marcante sobre a luta feminina, finalista do Baileys Women’s Prize.

O livro é dividido em três partes, chamadas: livro um – ossos da sorte, livro dois – duas moedinhas e livro três – revelações. Narrado em terceira pessoa, os capítulos tem perspectivas alternadas entre alguns personagens como Ruby, Ephram, Maggie e Celia. É uma obra bem narrativa, com poucos diálogos e com uma franqueza explícita, causando certo choque durante a leitura.

A primeira parte do livro foca no retorno de Ruby Bell de Nova York para essa pequena comunidade no Texas. Porém, o retorno dela se deu há onze anos (1963) e apenas agora, em 1974 Ephram Jennings, um homem de 45 anos decide tomar uma atitude. Entendam, é uma cidade pequena, do tipo em que todos sabem sobre a vida de todo mundo e tem opiniões firmes sobre a vida alheia. Além disso, é um local onde todos usam a palavra de Deus para justificar suas ações e para eles, Ruby Bell é uma mulher possuída. Ela passa os dias vagando, suja, magra, sem falar uma única palavra. Um retrato claro da desolação. Mas ao invés de estenderem a mão e ajudá-la, veremos que essa mulher que sofreu tanto em sua vida, ainda é abusada diariamente.

Essa primeira parte gira ao redor de Ephram e seu cotidiano. É um homem que trabalha como empacotador na Piggly Wiggly da cidade vizinha. Mora com a irmã Celia, que o criou desde menino e por conta disso, chama-a de mãe. Vivendo sob o jugo dessa mulher controladora, Ephram vive uma vida simples, sem aspirações. É também um homem simples, de poucas palavras, que presta a atenção em detalhes diários como o orvalho ou o cheiro de uma determinada planta e que desde pequeno, nutre sentimentos por Ruby.

Conhecemos aqui também um pouco sobre a história da família de Ruby, principalmente de sua tia Neva. Neva trabalhava na casa de um banqueiro, que se sentiu atraído pela empregada de cor. Recusando as investidas ela pede demissão, mas o ex-chefe a persegue e a faz amante dele contra a sua vontade. Constrói uma casa, que na verdade é uma prisão, pois ela não pode sair de lá. Quando a obsessão do banqueiro chega a um ponto implacável, uma desgraça incontrolável abate a família Bell, principalmente Neva, a jovem de 18 anos que foi abusada por seu patrão.

As mulheres da família Bell se destacam na cidade por conta de sua beleza, e vamos percebendo um padrão de abuso e atos indescritíveis. É uma leitura densa e difícil de acompanhar sem realizarmos uma pausa, de tão impactante que é o seu conteúdo.

A segunda parte do livro, “duas moedinhas”, conta a vida de Ruby em Nova York, mas também apresenta ao leitor a devastação que foi sua infância, através de seu emprego com uma senhora branca em outra cidade. É nessa parte do livro também que observamos o uso da fé e da religião para justificar atos desprezíveis, assim como a hipocrisia dos moradores locais. Percebe-se que muitos sabem o que acontece, mas que fecham seus olhos e que muitos são criminosos que sentam-se aos domingos na igreja e durante os demais dias, praticam o mal.

Também temos de certa forma, a alegoria do mal, sendo representado por demônios e fantasmas. Essa perspectiva, apresentada por Ruby deixa em aberto a possibilidade de uma entidade maligna na cidade, pois não podemos afirmar sua existência ou não, visto que a pessoa que a defende, sofreu tantos traumas que possivelmente não tem um raciocínio coerente. Foi uma forma muito inteligente da autora em utilizar o sobrenatural como possível justificativa de atos tão horrendos.

A terceira parte do livro, chamada “Revelações” trará ao leitor a história dos pais de Ephram, dois personagens que aparecem indiretamente na obra, mas que tem papel fundamental no destino dos protagonistas, como também a infância de Ephram antes de tudo mudar.

Vemos as mulheres dessa comunidade, representadas parcialmente por Celia, como mulheres que prezam o bom nome e os bons modos, que são trabalhadoras e virtuosas, mas que no fundo estão repletas de ressentimento e inveja. A necessidade de reconhecimento delas diante da comunidade, a competição em se ter um título na igreja e ostentá-lo diante das demais senhoras, deixando claro que o ato do “bom cristão” é apenas isso: um ato. Em contrapartida, vemos algumas mulheres, como a senhora P., uma idosa com quase 70 anos de idade, que exerce a verdadeira caridade sem nenhum reconhecimento, que enxerga a verdade mas se sente impotente diante da crueldade do mundo.

Ruby é uma personagem tão complexa que se torna impossível classificá-la. Tudo o que ela passou é difícil de compreender e acreditar que ela tenha conseguido sobreviver, mas vemos um indivíduo que sobreviveu ao mesmo tempo que está quebrado, paralisado e que se vê sem ações diante da maldade contínua que enfrenta.

Ephram é bom, genuinamente bom, mas não tem um pulso firme capaz de se impor ou impor suas vontades diante dos demais. Vemos uma trajetória que também é dolorosa, mas que apresenta um indivíduo sem tanta força quanto Ruby.

“Ruby” é um livro perturbador, onde a sinopse não faz jus a intensidade de seu conteúdo. É uma obra recheada de drama, que apresenta ao leitor uma visão sobre a exploração e a hipocrisia. É uma história que infelizmente é atemporal, mas escrita de forma brilhante.

ISBN-13: 9788551001202
ISBN-10: 8551001205
Ano: 2017
Páginas: 352
Idioma: português
Editora: Intrínseca
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Avaliação: 4/5

Carol Durães
Carol Durães

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