28abril2017

[Resenha] Garota em Pedaços – Kathleen Glasgow

(Editora Planeta, Outro Planeta, 1ª edição, 2017, 384 páginas)

Acho que você está tendo um tipo diferente de coração partido. Talvez coração partido por estar no mundo quando não sabe como estar nele. Isso faz algum sentido?

Garota em Pedaços é a história nua e crua de Charlie, e é também o retrato da realidade de milhares de garotas no mundo que possuem o transtorno do controle do impulso, mais conhecido como automutilação. Em sua perspectiva, teremos o vislumbre de uma vida marcada pela dor, pelo sofrimento e pelos traumas, além disso, o leitor poderá vivenciar inúmeras e diferentes emoções durante a leitura.

Em narrações curtas, Charlie apresenta ao leitor algumas garotas com quem convive (Jen S., Blue, Louisa), que estão em uma clínica de recuperação e são como ela, possuem o mesmo transtorno em diferentes graus, acordam todos os dias no mesmo horário, possuem uma rotina que inclui medicação várias vezes ao dia, artesanato, atividades e sessões com uma terapeuta, a quem chamam de “Garparzinho”.

Blue chama Charlie de “Sue Silenciosa”, porque desde que chegou à clínica não se sente à vontade para falar, está fechada para o mundo. A arte é seu único refúgio.

Nem sei por que isso importa. Quem liga? Quem liga para uma garota cheia de cicatrizes que não consegue ficar sozinha? Quem liga para uma garota cheia de cicatrizes que limpa o chão e transporta drogas para o namorado? A garota cheia de cicatrizes devia ligar. Mas ela não sabe como (…). A inclinação escorregadia nunca, nunca vai acabar. (p.274)

Vivendo fisicamente na clínica, mas permeando seus pensamentos e revivendo suas dolorosas memórias, Charlie sofre com a lembrança de Ellis, sua melhor amiga “que se cortou demais”, sente-se culpada por várias situações que julga terem fugido ao seu controle, pela paixão por Mikey.

Alguém que me esqueceu quando de mudou e seguiu em frente com a vida. (p. 184)

 

Ela nunca teve uma vida fácil, a mãe não pode pagar a clínica e decide tirar ela de lá, mas Charlie não tem para onde ir, até Mikey oferecer-lhe moradia por um tempo no Arizona. Novos ares, novas pessoas e novos desafios. Poderá Charlie viver de verdade? Poderá confiar em Riley e em seus sentimentos por ele?

Este é um romance inquietante, perturbador, contudo, é emocionante, sagaz e quando você começa a leitura, não consegue parar até chegar ao final. Já conheci muitas pessoas com transtornos mentais, não é algo que se possa controlar, os sentimentos e sensações ruins são sempre maiores do que a vontade da pessoa, é preciso de muito apoio, principalmente dos familiares, somente com persistência, atendimento médico especializado e direcionamento especial é que essas pessoas conseguirão vencer seus transtornos e obstáculos.

Louisa escreveu: “As pessoas deviam saber sobre nós. Garotas que escrevem a dor que sentem nos corpos.”

No final do livro, a autora deixa alguns sites e links úteis para que na possibilidade do leitor se automutilar ou conhecer quem faça isso, procure ajuda e que possa ajudar também.

Como obter ajuda?

AMITI | Ipub | Abrata |

O epílogo é algo que emocionante não serve para descrever. Não pense em finais felizes, mas em realidades alternativas, em histórias que marcam pelo sofrimento, amadurecimento e crescimento do personagem. Charlie é a protagonista que tem seus altos e baixos, não está bem na maior parte do seu tempo, mas sabe que está cansada de apenas “sobreviver” e decide “viver” de verdade.

(…) Charlie Davis encontra sua voz e seu consolo nos desenhos. Eu encontro os meus na escrita. Qual é o seu consolo? Você sabe? Encontre-o e não pare nunca de fazê-lo. (…) (nota da autora)

 

Onde comprar?

Amazon

Categorias:Resenhas
Thaís Turesso

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  • Felipe Lange abril 28, 2017

    Que livro incrível, adorei a resenha! Já quero ler!!
    Blog Entrelinhas