30março2017

[Resenha] Tudo o que nunca contei – Celeste Ng

Sinopse – Na manhã de um dia de primavera de 1977, Lydia Lee não aparece para tomar café. Mais tarde, seu corpo é encontrado em um lago de uma cidade em que ela e sua família sino-americana nunca se adaptaram muito bem. Quem ou o que fez com que Lydia — uma estudante promissora de 16 anos, adorada pelos pais e que com frequência podia ser ouvida conversando alegremente ao telefone — fugisse de casa e se aventurasse em um bote tarde da noite, mesmo tendo pavor de água e sem saber nadar? À medida que a polícia tenta desvendar o caso do desaparecimento, os familiares de Lydia descobrem que mal a conheciam. E a resposta surpreendente também está muito abaixo da superfície. Conforme analisa e expõe os segredos da família Lee — os sonhos que deram lugar às decepções, as inseguranças omitidas, as traições e os arrependimentos —, Celeste Ng desenvolve um romance sobre as diversas formas com que pais, filhos e irmãos podem falhar em compreender uns aos outros e talvez até a si mesmos. Uma uma observação precisa e dolorosa do fardo que as expectativas da família representam e da necessidade de pertencimento. Um romance que explora isolamento, sucesso, questões de raça, gênero, família e identidade e permanece com o leitor bem depois de virada a última página.

“Lydia está morta. Mas eles ainda não sabem disso. Dia 3 de maio de 1977, seis e meia da manhã, ninguém sabe nada a não ser por este fato inofensivo: Lydia está atrasada para o café da manhã.” (p. 05)

Essa é a primeira frase do livro e é o que dá início a tudo. A trama se passa em uma cidadezinha em Ohio no ano de 1977 onde a família Lee se destaca por ser sino-americana. Nathan, Lydia e Hannah são os três filhos do casal Lee: James e Marilyn. Quando Marilyn percebe que Lydia não está em casa, liga para a polícia e os dias de espera são agoniantes. Porém, a resposta não é algo promissor: a jovem de apenas 16 anos foi encontrada morta no lago local. Mas o que será que aconteceu? Como uma aluna exemplar e repleta de amigos foi parar lá? Quem a machucou? 

Após a perda, a casa dos Lee não é mais a mesma. Cada um deles fica preso em seu mundinho, tentando relembrar os últimos acontecimentos. E é nesse momento que o leitor percebe o quanto essa família é complicada.

A primeira coisa que nos chama a atenção é de Marilyn e James são obcecados por Lydia. Lydia é a representação de todos os seus sonhos perdidos, de todas as esperanças que eles tinham para o próprio futuro mas nunca conseguiram alcançar. A jovem de traços orientais destacava-se por seus olhos azuis. Olhos esses que faziam com que seu pai enxergasse na garota a possibilidade de aceitação da sociedade, enquanto que Marilyn via em Lydia a si mesma. Aquela que poderia ter sido.

O enredo é emocionalmente denso, pois vemos o descaso (mesmo que não intencional) que os pais tem em relação à Nathan e Hannah. Nathan, o primogênito, um jovem inteligente e que se destaca nas notas e que tem um futuro promissor pela frente, mas que não recebe o devido reconhecimento. E Hannah, a garotinha que se funde à mobília da casa, que dorme no sótão, o local onde a família coloca as coisas esquecidas. A jovem que sabe mais do que todos, mas que é completamente ignorada, muitas vezes até mesmo pelos irmãos.

Enquanto tentamos descobrir o que houve com Lydia, vemos como sua vida também não é fácil. A pressão, as cobranças, a necessidade de agradar aos pais após o terrível incidente que ocorreu quando ela tinha apenas cinco anos de idade. A vida regrada, repleta de estudos e sem diversão. Os “presentes” da mãe, a cobrança do pai pela vida social, o futuro planejado sem ao mesmo ter a oportunidade de opinar sobre ele.

“Antes disso, ela não tinha se dado conta de como a felicidade era frágil, como a qualquer momento, se não fosse cuidadosa, ela poderia cair e quebrar.” (p.276)

A autora usa como pano de fundo a América segregada, os problemas encontrados por casais birraciais, mas a história em si é atemporal. A disfuncionalidade familiar é algo que acontece desde sempre, o favorecimento de um filho, a pressão encontrada para se tornar o que os pais desejam, os sonhos nunca almejados que se tornam ressentimentos. É um enredo intrínseco à condição humana.

A escrita da autora Celeste Ng é espetacular. Ela consegue dosar a emoção em suas palavras, de forma que o leitor sinta o sofrimento dos personagens. A rejeição de Nathan; a invisibilidade de Hannah; o descontentamento de Marilyn; o deslocamento de James e o turbilhão que Lydia representa.

“Não se importava com aquele estado permanente de eclipse: toda noite, Lydia batia de leve na porta do seu quarto, calada e infeliz. Ele entendia tudo o que a irmã não dizia, que, no fundo, era: Não solte. Quando Lydia ia embora – para encarar seu dever de casa ou um projeto para a feira de ciências -, ele virava seu telescópio para fora, procurando estrelas distantes, lugares longínquos onde talvez um dia se aventurasse sozinho.” (p. 163)

“Tudo o que nunca contei” é uma obra sobre a condição humana, sobre a insatisfação constante que temos sobre as nossas vidas e a incompreensão dos problemas alheios. É um livro que fala sobre a dificuldade de enxergamos aquilo que está na nossa frente e de aceitarmos a nós mesmos e ao próximo.

Em relação à revisão, diagramação e layout a editora realizou um ótimo trabalho. A capa é simples, mas complementa perfeitamente o conteúdo.

“E a própria Lydia – o centro relutante daquele universo – todos os dias mantinha o mundo estável. Absorvia os sonhos dos pais, silenciando a relutância que fervilhava por dentro.” (p. 163)

ISBN-13: 9788580579741
ISBN-10: 8580579740
Ano: 2017
Páginas: 304
Idioma: português
Editora: Intrínseca
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Avaliação: 4/5

Carol Durães
Carol Durães

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