26fevereiro2017

[Resenha] Flor da Pele – Javier Moro

Sinopse – Estamos no início do século XIX, e a varíola, também conhecida como flor negra pelas marcas que deixa na pele daqueles que são infectados, é a doença mais temida do mundo. Não há rico ou pobre, criança ou velho, que esteja a salvo. Ao menos até pesquisadores começarem a testar um método ousado, porém eficaz, que consiste em provocar infecções atenuadas em pessoas saudáveis, tornando seus organismos resistentes ao mal. É nesse momento que uma jovem mãe solteira, Isabel Zendal, torna-se a primeira enfermeira da história numa missão internacional. Acompanhada por vinte e duas crianças com idades entre três e nove anos, ela parte rumo aos territórios espanhóis no além-mar para levar a recém-descoberta vacina da varíola à populações pobres. A expedição é liderada pelo médico Francisco Xavier Balmis e por seu ajudante, Josep Salvany, que enfrentarão a oposição do clero e a corrupção de autoridades locais e também disputarão o amor de Isabel. A história real de amor e coragem de Isabel Zendal, à qual o best-seller Javier Moro teve acesso após ampla pesquisa, é retratada neste romance com a mesma riqueza de detalhes e delicadeza de outros sucessos do autor, como Paixão índia e O sári vermelho.

Em “Flor da pele”, Javier faz uma descrição precisa do panorama da varíola e da destruição causada por ela. O livro tem como protagonista Isabel Zendal, uma mulher que perdeu precocemente a mãe para a varíola e teve que assumir a criação dos seus irmãos mais novos. Porém, a economia na época era precária e seu pai não vê outra alternativa a não ser pedir para o pároco que arrumasse um emprego a filha mais velha, que acaba indo trabalhar na residência de uma família abastada como babá de seus filhos. 

O tempo passa e a jovem Isabel se torna uma mulher deslumbrante mas muito ingênua e acaba se apaixonando por um militar que a deixa solteira e grávida. Após uma tragédia abater a família para quem trabalha, o trabalho de cuidadora de Isabel é reconhecido e ela recebe a oportunidade de administrar um orfanato e cuidar das crianças e com isso, poder cuidar de seu próprio filho.

Em paralelo a história de Isabel, observamos a devastação que a epidemia de varíola está causando na Espanha. O médico cirurgião do exército espanhol, o dr. Balmis, acredita que a vacinação (processo recente e que ele é um grande estudioso) é a resposta para extinguir a epidemia. Ele acredita que as crianças deveriam ser inoculadas com uma pequena quantidade do vírus para que ao contaminar as pessoas ao redor. elas sejam capazes de se tornar resistentes. Sua proposta é ousada e debatida intensamente na área médica, mas o rei não vê outra alternativa quando percebe que seu país está desmoronando. A ideia é levar as crianças para as colônias espanholas no intuito de se certificar de que o método funciona.

Durante sua missão, o caminho do dr. Balmis se cruza com o de Isabel e os dois irão realizar um trabalho pioneiro que se tornará um marco na história. Javier Moro é bem descritivo e detalhista em sua narração e o leitor consegue vivenciar as dificuldades da época, os problemas da saúde, a pobreza e os percalços encontrados pelos protagonistas de forma bem vívida. 

“Balmis sentiu um tremor percorrer seu corpo: era a satisfação íntima e intensa de ver como seu sonho caminhava para se realizar. Aquilo compensava todos os bubões, as fístulas, as úlceras, os tumores calosos e viscosos, as verrugas e os condilomas em que precisaria aplicar unguentos mercuriais de questionável eficácia.” (p. 99)

Por conta desse detalhismo muitos leitores podem achar a leitura de “Flor da Pele” um pouco arrastada ou lenta, mas o livro vale a pena. Não apenas está sendo apresentado situações reais, fatos históricos, como também pessoas que realmente existiram, mas de forma romanceada. 

Isabel é uma mulher determinada e batalhadora que vence cada uma das adversidades impostas a ela pela vida. Cada erro ou problema é um aprendizado e ela absorve cada informação ao seu redor. O doutor Francisco Xavier Balmis é um homem pragmático, com o pensamento muito além do seu tempo. É inteligente, perspicaz mas ao mesmo tempo falta um pouco de desenvoltura social. E isso fica claro pela interação de Isabel e Balmis. Ele muitas vezes é volátil, até mesmo grosseiro e a dinâmica dos dois é cheia de atrito. Ele é tão focado no seu projeto que esquece o lado humano dele: as crianças e os doentes. O terceiro personagem que acaba interferindo nessa dinâmica é o auxiliar do dr. Balmis, o Josep Salvany, um homem com um temperamento totalmente diferente de Balmis. É a dinâmica dos três, os perigos que eles encontram e os obstáculos que dão a dimensão do romance no livro.

“Isabel avisara Balmis sobre a situação de Vicente María e o bilhete que dizia que os pais voltariam para buscá-lo, mas o médico deu de ombros. Obter braços suficientes para a viagem fora custoso demais para que ele se detivesse pelo improvável reclame do garoto”. (p. 179)

Em relação à revisão, diagramação e layout a Editora Planeta realizou um ótimo trabalho.

“Tinha a impressão de que perderia tudo de bom que havida conseguido; de que, entre confessar o pecado e voltar ao buraco negro de sua aldeia, era apenas um passo.” (p. 81)

ISBN-13: 9788542207026
ISBN-10: 8542207025
Ano: 2016
Páginas: 432
Idioma: português
Editora: Planeta do Brasil
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Avaliação: 4/5

Carol Durães
Carol Durães

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