25Janeiro2017

[Resenha] Faca de Água – Paolo Bacigalupi

Sinopse – Num futuro árido e tumultuado, em que a água ganhou o status de commodity mais valiosa, o direito de uso das fontes e dos rios é alvo de disputas ferrenhas. Uma guerra entre governos, órgãos públicos e empresários, na qual vale tudo. Enquanto advogados e burocratas armam-se com infinitos processos judiciais, mercenários e militares subjugam proprietários de terra, implodem estações de tratamento e interrompem o abastecimento de regiões inteiras. Nesse cenário surge Angel, um faca de água, um dos muitos mercenários com a missão de cortar e desviar o fornecimento de água a mando de quem paga mais. Lucy é uma jornalista premiada que decidiu revelar para o mundo a realidade da Grande Seca. Maria é uma jovem cuja vida foi destruída pelos efeitos das mudanças climáticas. Quando o direito de usar a água significa dinheiro para alguns e sobrevivência para outros, o que esses três personagens não sabem é que seu encontro é um marco que poderá mudar tudo. Um novo fiel da balança que sempre pendeu para o mesmo lado. Futurista, mas nada improvável, Faca de Água é um thriller que perpassa por questões econômicas, ambientais e éticas numa narrativa que extrapola o gênero, daquelas que se lê de uma tacada só e depois leva-se um longo tempo assimilando.

“Faca de água” é um livro que aborda uma temática não muito distante do nosso possível futuro: a escassez de água. Conforme a sinopse explica, a trama se passa em um futuro onde a água é algo valioso, tão valioso que vale a pena matar e morrer por ele.

A história é narrada em terceira pessoa e tem vários personagens que se tornam protagonistas. Conforme a trama se desenvolve, cada um deles apresenta sua situação e como faz para sobreviver nesse futuro até chegar a um ponto em que as histórias se entrelaçam, tornando-se uma complexa trama repleta de revelações.

Tudo começa com Angel Velasquez, um homem que aprendeu a sobreviver as adversidades impostas em sua vida. Angel é um faca de água, algo como um mercenário que tem como objetivo roubar os rios e vertentes remanescentes dessa matéria prima tão escassa. Angel é leal a Catherine Case, a líder de Nevada, uma mulher que comanda um dos complexos existentes mais prósperos.  Acontece que após a Grande Seca, os líderes desses locais utilizam a lei do Rio para reivindicar seus direitos, mas enquanto a burocracia não se decide, outros métodos são utilizados para se conseguir o que deseja. Angel é enviado para uma missão importante em Phoenix, onde um dos espiões de Catherine encontra-se assustado demais e pedindo constantemente para ser retirado de lá.

Phoenix é um lugar caótico, onde os pobres são mortos diariamente e ninguém se importa. São jogados em piscinas vazias e nem mesmo a polícia sente necessidade de investigar o que acontece. É lá que se encontra Lucy e seu cão Sunny. Lucy é uma jornalista premiada que poderia ter uma vida tranquila e sem preocupações ao lado de sua irmã Lucy e sua família, mas  decidiu mergulhar nesse local desesperançoso e violento. Quando chegou ao local, era uma mulher cheia de ideais, que sonhava em fazer mudanças através de suas histórias, mas que acabou vendo em primeira mão que o mundo não se move por causa de ideais. Ela percebeu que as mortes eram banalizadas e que a cada foto trágica postada nas redes sociais, Lucy apenas incentivava a Pornografia do Colapso (as pessoas gostam de ver as tragédias e quanto mais impactante a imagem, melhor). Lucy tem amizade com James Sanderson, um advogado do departamento de águas que alega ter tirado a sorte grande e que em breve teria o conforto garantido para a vida inteira. Logo depois disso, ele é brutalmente assassinado. E é nesse momento que Lucy resolve jogar a cautela para o ar e acaba envolvida em uma situação fatal…

“Antes ela ficara de fora, relatando. Agora era pessoal. Mais como um diário que escrevia durante a noite. Amargo. Cru. Exposto e intimista. Repleto de loucura, perda e decepção. O tipo que alguém no limite incerto da sanidade mantém enquanto passa de Tecate para tequila”. (p. 152)

Maria é uma jovem que cresceu observando o seu pai otimista. Seu pai alegava que se trabalhassem duro e se esforçassem, seriam recompensados com coisas boas, mas tudo o que a garota concluiu é que o pai era um sonhador. Prova disso foi forma como ele morreu e o fato de que ela teve que aprender a sobreviver em um mundo cruel. Contando apenas com o apoio da amiga Sarah, uma outra jovem desiludida pela vida, Maria percebe que precisa ser inteligente e abraçar as oportunidades que surgem para conseguir seguir em frente. Sarah é uma prostituta que sonha em ser sustentada por um dos figurões com quem dorme e Maria tenta absorver todas as informações que recebe para encontrar uma brecha. Um dos clientes de Sarah, um especialista sênior em hidrologia, será a pessoa que irá fornecer a informação que mudará a vida de Maria.

Esses três personagens tão diferentes estão envolvidos em uma trama complexa que envolve ganância, assassinatos, jogadas políticas e água.

Apesar de se tratar de uma distopia futurística é impossível não pensar nesse cenário como uma possibilidade para o nosso próprio futuro. O autor trabalhou muito bem o fator humano da obra, deixando claro que em situações extremas o que reina é a sobrevivência. Vemos cenários em que aqueles que tem dinheiro esbanjam a água de forma atroz, enquanto que muitos estão morrendo por problemas respiratórios e tantas outras doenças relacionadas à escassez. Mas não é apenas isso. A obra abre um debate intenso e visceral sobre o comportamento humano, sobre a banalização da violência (o que o autor chamou de Pornografia do Colapso, citado anteriormente), a corrupção e a própria banalização da vida.

A trama é rica, complexa e muito bem desenvolvida. O único problema encontrado e o motivo do livro não ter recebido cinco estrelas, é o fato de que o início do livro é lento e arrastado, por conta de muitos termos próprios desse futuro. Os primeiros capítulos são cheios de situações e nomes que não estamos acostumados e como as explicações são rápidas, a leitura tornou-se um pouco dificultosa. Porém, assim que ultrapassamos os primeiros capítulos, o livro torna-se uma leitura fantástica.

“- Somos todos a mesma gente. Assim como todos somos guardiões de nossos irmãos. Às vezes nos esquecemos disso. Quando tudo está caindo aos pedaços, as pessoas acabam esquecendo. Mas no fim? Estamos todos juntos nisso”. (p. 270)

Em relação à revisão, diagramação e layout a editora realizou um ótimo trabalho. As bordas das páginas são pretas como a capa e dão um ar mais apocalíptico ao livro. A revisão está impecável e a capa, apesar de simples, combina bem com o conteúdo.

“Alguém tem que sangrar para que o outro possa beber.”

ISBN-13: 9788580579437
ISBN-10: 8580579430
Ano: 2016
Páginas: 400
Idioma: português
Editora: Intrínseca
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Avaliação: 4/5

Carol Durães
Carol Durães

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